19/10/2010
18/10/2010
tentativa I
Quanto me falta pra descobrir que as coisas são feitas por uma razão inexplicável e incompreensível. Queria voltar ao meu estado de ignorância, de busca por sentimentos falsos e vãos. Queria não ser frio, e esperava que as sucessões de erros de cálculo me fizessem perceber que não sou um bom racionalizador. Queria me voltar contra mim mesmo e como represália me tornar um sentimental, aproveitar os sonhos, os cantos, as paisagens e as dores da vida, e senti-las tão profunda e intensamente. Mas não. Não as sinto e não as compreendo. Fico a mercê do meu poder calculativo, deliberando meus erros, abstraindo os sentidos [ou subtraindo os sentidos]. Pois, mais do que qualquer coisa eu sei que só a razão não basta. Mas mais do que isso, há confusão em meus pensamentos; talvez me esteja propício para escrever versos. Talvez devesse tomá-los como tomo teus soluços e suspiros, devia me embriagar de tuas lágrimas, e esperar que elas fizessem me compadecer um sentimento que sempre sonhei que pudesse acordar tendo. Nunca o tive.
Esperei por mais tempo que devia, antes pensava poesia, livre de significações, de fronte para uma ante-sala, acanhado, olhando à parede, olhando às marcas do tempo na parede. Frustrei a lógica [e falei sem medo]; respeitando a peculiaridade poética da irracionalidade sentimental; não me importei com conseqüências indesejadas, tampouco parei por não respeitar leis estéticas obtusas e vagas; falei com a dor da minha boca, e senti o pavor das minhas entranhas; estranho. Vivo estrangeiro, vagueando terras sem esmo; ermo; insólito eremita inconsolado, roto pela grandeza dos meus sonhos; esfarrapado pelo peso de meus fracassos. Um dia sonhei ser velho, vi-me a beira da morte, nauseado pelas falsas glórias, com vertigem pela fugacidade e o contentamento.
Esperei três horas para acordar. Não por estar com sono, mas porque os meus pés estavam destapados. Vi o peso de meu tempo, vi o fardo dos meus sonhos; e os abandonei; eram grandiosos demais para ninguém; estava na beira; via a lua me sorrir com um sorriso quase vulgar. Vi o céu se abrir com uma calma peculiar. Esperei. Esperei pelos versos, que me falharam; hoje me arrependo pelo meu voto de silêncio; ninguém merece ver o que eu vi sem poder falar nada; ninguém merece ser quem fui sem poder abrir a boca;
Minutos atrás versava na chuva, fumava o cigarro da minha vida, e as gotas impregnavam a poesia em meu pensamento; sentia como a chuva em minha face – palavras -; era um balbucio, gaguejava pensamentos aéreos, hesitava com palavras fingidas a dor que não me tinha. Os acasos da vida, as cenas improváveis que vivemos todos os dias; de tal acaso retiro o peso da minha vida; vejo o preço das minhas escolhas como grilhões; como cordas e amarras;
Minha inexpressiva capacidade de relacionar. Talvez por isso busque os absolutos; lá me entendo; sempre um solitário, sempre excluindo sentidos e relações. Num vago mundo mágico e ilusório; construi de minha incoerência uma fantasia; gastei com o tempo minha reserva de alegria; abri mão dos meus contrários; tornei-me um lógico [talvez algo que sempre fui]; o preço foi abrir mão das possibilidades incoerentes das relações e dos sentimentos;
Busco com todas as minhas forças o desconforto; um desconforto absoluto; saboto minhas expectativas, mascaro meus sonhos; simulo sentimentos insensíveis; dissimulo na falta de pensamentos; [e isso para fingir uma leveza pretensiosa, um falso sabor de liberdade]. Não dá! Não consigo continuar carregando esse fardo; esse peso indesejado que me faz curvar;
Faltou-me viver a vida. E não por alguma alegria fugaz ou por qualquer motivo [das inumeráveis desculpas que nos impomos] irresponsável. Não vivi por escolha; acomodei-me com meu simulacro, falsifiquei minha caligrafia para parecer santo [eu, o descrente]; logrei os sentidos para parecer bom [eu, o egoísta]; acomodei as metáforas para parecer gênio [eu, o acomodado]; se sou santo, bom ou gênio, é porque aprendi desde cedo a fingir o que não era. Como não sentia, precisava imaginar metáforas e analogias para que não me percebesse pedra; osso; frio; hoje em dia sou um quase-humano; finjo que não me sou; [fazendo de mim meu fingimento]
Eu e meu deserto; talvez nunca estive onde estou. Sinto-me no deserto; e chove tanto na rua... aqui dentro é frio e não sinto o gelo em meus pés. Mas nada que não tenha sentido antes; o infortúnio de uma vida não aproveitada, a falta de apreço; a acomodação. Queria sair correndo; mas o deserto é movediço, e me afundo em desilusão.
Vendo minha face [no espelho] constato que sou estranho a minha carne; sou alheio ao corpo que me faz jus; carrego meu fardo indolente [com todo o peso do insensível]. Vivo como um espectro; mas fora...
Escrevo. Vivo minha busca letra por símbolo; palavra por sentido; analogia por metáfora; procuro meu ritmo no insustentável; conquisto rimas por distração; vivo como nas águas do rio de Heráclito: fluo [,seja por derivação, seja por abstração] na precisão de meu movimento; vou [,como se nada houvesse] ao encontro da abstração e da poesia.
Esperei por mais tempo que devia, antes pensava poesia, livre de significações, de fronte para uma ante-sala, acanhado, olhando à parede, olhando às marcas do tempo na parede. Frustrei a lógica [e falei sem medo]; respeitando a peculiaridade poética da irracionalidade sentimental; não me importei com conseqüências indesejadas, tampouco parei por não respeitar leis estéticas obtusas e vagas; falei com a dor da minha boca, e senti o pavor das minhas entranhas; estranho. Vivo estrangeiro, vagueando terras sem esmo; ermo; insólito eremita inconsolado, roto pela grandeza dos meus sonhos; esfarrapado pelo peso de meus fracassos. Um dia sonhei ser velho, vi-me a beira da morte, nauseado pelas falsas glórias, com vertigem pela fugacidade e o contentamento.
Esperei três horas para acordar. Não por estar com sono, mas porque os meus pés estavam destapados. Vi o peso de meu tempo, vi o fardo dos meus sonhos; e os abandonei; eram grandiosos demais para ninguém; estava na beira; via a lua me sorrir com um sorriso quase vulgar. Vi o céu se abrir com uma calma peculiar. Esperei. Esperei pelos versos, que me falharam; hoje me arrependo pelo meu voto de silêncio; ninguém merece ver o que eu vi sem poder falar nada; ninguém merece ser quem fui sem poder abrir a boca;
Minutos atrás versava na chuva, fumava o cigarro da minha vida, e as gotas impregnavam a poesia em meu pensamento; sentia como a chuva em minha face – palavras -; era um balbucio, gaguejava pensamentos aéreos, hesitava com palavras fingidas a dor que não me tinha. Os acasos da vida, as cenas improváveis que vivemos todos os dias; de tal acaso retiro o peso da minha vida; vejo o preço das minhas escolhas como grilhões; como cordas e amarras;
Minha inexpressiva capacidade de relacionar. Talvez por isso busque os absolutos; lá me entendo; sempre um solitário, sempre excluindo sentidos e relações. Num vago mundo mágico e ilusório; construi de minha incoerência uma fantasia; gastei com o tempo minha reserva de alegria; abri mão dos meus contrários; tornei-me um lógico [talvez algo que sempre fui]; o preço foi abrir mão das possibilidades incoerentes das relações e dos sentimentos;
Busco com todas as minhas forças o desconforto; um desconforto absoluto; saboto minhas expectativas, mascaro meus sonhos; simulo sentimentos insensíveis; dissimulo na falta de pensamentos; [e isso para fingir uma leveza pretensiosa, um falso sabor de liberdade]. Não dá! Não consigo continuar carregando esse fardo; esse peso indesejado que me faz curvar;
Faltou-me viver a vida. E não por alguma alegria fugaz ou por qualquer motivo [das inumeráveis desculpas que nos impomos] irresponsável. Não vivi por escolha; acomodei-me com meu simulacro, falsifiquei minha caligrafia para parecer santo [eu, o descrente]; logrei os sentidos para parecer bom [eu, o egoísta]; acomodei as metáforas para parecer gênio [eu, o acomodado]; se sou santo, bom ou gênio, é porque aprendi desde cedo a fingir o que não era. Como não sentia, precisava imaginar metáforas e analogias para que não me percebesse pedra; osso; frio; hoje em dia sou um quase-humano; finjo que não me sou; [fazendo de mim meu fingimento]
Eu e meu deserto; talvez nunca estive onde estou. Sinto-me no deserto; e chove tanto na rua... aqui dentro é frio e não sinto o gelo em meus pés. Mas nada que não tenha sentido antes; o infortúnio de uma vida não aproveitada, a falta de apreço; a acomodação. Queria sair correndo; mas o deserto é movediço, e me afundo em desilusão.
Vendo minha face [no espelho] constato que sou estranho a minha carne; sou alheio ao corpo que me faz jus; carrego meu fardo indolente [com todo o peso do insensível]. Vivo como um espectro; mas fora...
Escrevo. Vivo minha busca letra por símbolo; palavra por sentido; analogia por metáfora; procuro meu ritmo no insustentável; conquisto rimas por distração; vivo como nas águas do rio de Heráclito: fluo [,seja por derivação, seja por abstração] na precisão de meu movimento; vou [,como se nada houvesse] ao encontro da abstração e da poesia.
03/10/2010
Minhas proposições sobre a liberdade.
Sem pretensão de originalidade, isso é muito mais a tentativa de organizar idéias
A liberdade total não pode existir sem que haja capacidade de escolher.
A escolha se expressa através de juízos.
Para que haja juízos deve haver linguagem.
Logo, toda liberdade de escolha está inscrita na linguagem.
Para que haja linguagem deve passagem do estado pré-linguageiro ao estado com linguagem. Isso na teoria da psicanálise é chamado castração (psicogênese + logogênese).
A Psicogênese é condição de possibilidade para a capacidade de tomar consciência de objetos.
Como a liberdade se dá dentro do campo da linguagem, a liberdade não é a ausência de regras. Ela é a possibilidade inscrita dentro de uma lei.
A lei da liberdade é o limite do pensamento e coincide com o limite da linguagem.
O limite da linguagem é dado pelo campo de sentido.
Juízos devem ter forma lógica tal que haja sentido e referência.
A referência é a possibilidade de referir-se à um objeto (nomear). O sentido é a propriedade de atribuir algo à um outro algo (realizar uma proposição).
Logo, a liberdade consiste em poder dizer a verdade.

22/09/2010
Antonio Machado - Poeta Sevilhano.
| Era un niño que soñaba un caballo de cartón. Abrió los ojos el niño y el caballito no vio. Con un caballito blanco el niño volvió a soñar; y por la crin lo cogía... ¡ Ahora no te escaparás! Apenas lo hubo cogido, el niño se despertó. Tenia el puño cerrado. ¡ El caballito voló! Quedóse el niño muy serio pensando que no es verdad un caballito soñado. Y ya no volvió a soñar. Pero el niño se hizo mozo y el mozo tuvo un amor, y a su amada le decía: ¿ Tú eres de verdad o no? Cuando el mozo se hizo viejo pensaba: todo es soñar, el caballito soñado y el caballo de verdad. Y cuando vino la muerte, el viejo a su corazón preguntaba: ¿ Tú eres sueño? ¡ Quién sabe si despertó! | Era um menino a sonhar com um cavalo de cartão. O menino abriu os olhos e não vui o cavalinho. Com um cavalinho branco ele voltou a sonhar; pelas crinas o prendia... Assim não te escaparás! Mal o conseguiu prender, logo o menino acordou. Tinha a sua mão fechada. O cavalinho voou! O menino ficou sério, pensando não ser verdade um cavalinho sonhado. Já não voltou a sonhar. E o menino fez-se moço e o moço teve um amor, e dizia à sua amada: Tu és de verdade ou não? Quando o moço se fez velho pensava: Tudo é sonhar, o cavalinho sonhado e o cavalo de verdade. E quando chegou a morte, o velho ao seu coração perguntava: Tu és sonho? Quem saberá se acordou! crédito da tradução: o canto da filosofia. |
21/09/2010
Falsa Desinibição.
Há muitas formas do ser humano se comportar e estas promovem tantas outras formas que são respostas às primeiras, que talvez faltassem palavras para identificá-las uma a uma. Algumas são sentidas de forma neutra, outras causam irritação, paixão e sentimentos dos mais diversos tipos. Há, entretanto, um tipo de postura que é certamente enigmática. Eu chamo essa postura de falsa desinibição.
Podemos aparentar algo verdadeiro: sinto tristeza e além de sentí-la aparento estar triste. É algo comum para todos, pois não satisfeito com o sentimento que tem julga importante expressár esse sentimento.
Podemos aparentar algo falso: sinto tristeza e apesar de sentí-la, aparento com um enorme sorriso no rosto, que estou alegre. Isso pode ser sincero, pois muitas vezes não queremos que nosso estado de animo afete os amigos.
A falsa desinibição é diferente das demais formas de aparentar algo falso.
Contudo, por que escrevo sobre a falsa desinibição? Me parece que esta forma de aparecer contém um problema significativo. A falsa desinibição, quando capturada por uma pessoa nas atitudes de um indivíduo aparece como uma forma boba de ser sujeito.
Por que demonstrar estar desinibido? Se a intenção é não preocupar um grupo, até entendo as razões, mas quando as razões são demonstrar segurança de si?
A segurança de si, inúmeras vezes é acompanhada por um grau de certeza sobre banalidades que tranformam o homem no poço mais fertil de mesquinharia já criado. Parece que estar seguro de si, das próprias atitudes, das palavras que serão proferidas (por que alguém seguro de si não conversa, essas pessoas geralmente se pronunciam), parece que todo esse peso de estar seguro de si surge ao fazer uma imagem fora do tempo, congelada num brilho que reflete as crenças da pessoa em questão, naquilo que ela cre ser o melhor. O problema dessa segurança de si é que, ao invés de brindar os outros com uma pessoa séria para conversar, contar e se divertir, ela traz um sujeito muitas vezes opressor e pouco dado à alteridade.
Parece que esse poço de segurança que alguém pode vir a ser torna-se uma barreira na absorção de novas experiências e nessa medida é exatamente um principio egoísta para se relacionar com os outros e com o mundo. Egoísta por que se centra numa imagem, numa certa idéia de autosuficiencia – joga para o espaço a diversidade de coisas que ocorrem no mundo e deixa de aprender com elas.
Assim, voltando ao ponto de partida, se temos um tipo falsamente desinibido que tenta mostrar uma falsa segurança de si, temos possivelmente uma catátrofe humana, pois representa um desejo de ser algo fadado à autodestruição.
Me parece que a segurança de si, a certeza quanto aos próprios desejos e sentimentos é algo muito dificil de alcançar genuinamente. São poucos momentos que temos bem presente à mente o que sentimos e pensamos. Saber disso, parece um bom princípio para se relacionar.
Entretanto, parece que o sujeito que tem alguma segurança de si melhor representa isso para outra pessoa precisamente quando não está comprometido com isso. Nesse sentido, alguém falsamente desinibido assume um compromisso com a aparência de desinibição e torna esse compromisso muito mais fundamental que a verdade de sua inibição.
A comparação é boa, pois mostra uma forma indireta de obter a verdade. Através de uma aparência, de uma simulação, escapa algo que permite entrever o que de verdadeiro estava tentando ser ocultado.
Sei que o texto é pouco filosófico. Mas, na medida que fala de coisas da vida, pode em certa medida ter alguma importância.
13/09/2010
Trauma Original
O que podemos dizer se diante desse todo primitivo que em nós dorme, chamassemos o seu abandono, e a passagem à multiplicidade, de trauma original.
E, se o trauma original, a perda daquela plenitude, significasse alcançar a linguagem – o seu nascimento - e que a linguagem fosse a tentativa de pronunciar esse todo.
E, se diante do fracasso nessa enorme tarefa de ressituar o todo, o homem tentasse
1.negar, inconscientemente, que deseja esse todo, por que crê que o tem
2.ou negasse, inconscientemente, que teve esse todo, por que não crê que o mereça
3.ou jamais soubesse, nem inconscientemente, que perdeu esse todo
4. Não se conforma em saber, inconscientemente, que sabe não ter esse todo
Que existências supostas em discursos se geram diante disso?
1. Perversão
2. Melancolia
3. Psicose.
4. Neurose.
Só um ensaio de aproximação com questões já conversadas.09/09/2010
Logo Seremos Divinos
O que nasce para nós quando nascemos para o mundo? O que perdemos e o que ganhamos num primeiro ato de consciencia?
Parece que as criaturas conscientes que somos não podem impunemente existir. Um preço eterno sob nossa curta existência parece pesar a cada momento que viramos nossas faces preferindo olhar para algo e deixando de olhar para o outro lado. Eternamente morais, conscientes de qualquer coisa ou de tudo, algo que assombra e apaixona.
Nascer psiquicamente é ver um mundo divido, é aceitar uma divisão que nasce no próprio corpo com relação às demais coisas e que se extende para todos os sentidos. Mesmo a unidade das coisas pode ser discutida, assim como sua compartimentação.
O que é fundamental para nós aqui, nesse curto texto, é que o mundo dividido pela linguagem, aquele na qual ela pode se referenciar para significar é um mundo que nasce da propria fragementação do sujeito. Da divisão deste entre ser um pedaço de carne que reage e da sua vida inteira estar banhada na linguagem. O mundo do psiquismo é aquele capaz de tomar as percepções como objeto de conhecimento.
Que vida é essa que nasce para todo aquele que experimenta a linguagem? É uma vida de busca por restituição, de reunião da unidade perdida. Sentimento de ter de novo o todo que foi roubado. Todo que a morte parece solenemente devolver-nos.
A Arte, a Religão, os Ritos, enfim, a Cultura enquanto práticas do cotidiano é o canto da vida em que o homem ensaia a metáfora de buscar essa restituição. É nesses campos que o homem atua para se renovar e reerguer os pilares da sua subjetividade, daquilo que o faz singular.
Cada vez que o homem enfrenta a possibilidade dessa restituição da unidade primordial que ele imagina um dia ter tido, ele aprende. É como se ele retornasse do momento antes do seu nascimento. O ganho dele ocorre na linguagem e será na fala e no outro que a necessidade de estabelecer o que aprendeu se manifestará. Retornar dessa condição é ter uma abreação, é perceber um limite da linguagem no momento em que ela vai até seu limite e que ao retornar traz consigo o aprendizado.
Se alguem subir ao céu, e de lá contemplar a beleza do universo e dos astros, todas essas maravilhas deixá-lo-ão indiferente, enquanto que o embasbacarão de surpresa se tiver de contá-las a alguém. Assim, a natureza do homem se recusa à solidão, e parece sempre procurar um apoio: e não o há mais doce que o coração de um terno amigo.
Cicero, Da Amizade. Cap. 13
Um abraço a todos os amigos que estiveram no marcante fim de semana do 7.9.2010
07/08/2010
Por que não, tio Witt?
A provocação foi aceita. Afinal, quando se crê ter armas para o combate e quando há gozo mesmo na derrota, fica difícil levar o tapa e dar-se por contente.
Devo encarar a provocação do Ad, não como exclusivamente sua, pois como se diz na Antigona, no momento que o rei sabe da desobediência da jovem: Não devemos confundir as más notícias com o mensageiro.
Devo tentar desfazer a armadilha que Wittgenstein fez à psicanálise e tenho poucos recursos para isso. Em primeiro lugar, não sei até onde mais ia seu argumento contra a psicanálise. Também devo dizer que uma ferramenta que posso me valer é dos argumentos ulteriores da psicanálise – ou seja, aqueles que Freud não chegou a levar a diante.
Dito isso, vejamos o que nos diz Wittgenstein:
"Freud refers to various ancient myths in these connections [dreams], and claims that his researches have now explained how it came about that anybody should think or propound a myth of that sort. Whereas in fact Freud has done something different. He has not given a scientific explanation of an ancient myth. What he has done is to propound a new myth. The attractiveness of the suggestion, for instance, that all anxiety is a repetition of a anxiety of the bird trauma is just the attractiveness of mythology. 'It is all the outcome of something which happened long ago'. Almost like referring to a totem. Much the same could be said of the notion of an Urzene [ou 'cena primordial']. This often has the attractiveness of giving a sort of tragic pattern to one's life. It is all the repetition of the same pattern which was settled long ago. Like a tragic figure carrying out the decrees under which the fates had placed him at birth. Many people have, at some period, serios trouble in their lives - so serious as to lead to thoughts of suicide. This is likely to appear to one as something nasty, as a situation too foul to be a subject for tragedy. And it may then be an immense relief if it can be shown that one's life has the pattern rather of a tragedy - the tragic working out and repetition of a pattern which was determined by the primal scene." (L. Wittgenstein, 'Conversation on Freud' in 'Lectures and Conversations on Aesthetics', Psychology and Religious Belief, p. 51).
É verdade que Freud propõe um outro mito e que sua explicação dos mitos como reinveções de um mito primordial não respodenria de forma direta o que são mitos. O problema de objetar isso à Freud é que Freud não tem elementos para dizer o que deve dizer, o que ele tenta comunicar é que os mitos são formações psíquicas e não tentativas de explicação com valor de verdade. Freud sabe que não diz nada novo quanto aos mitos; o que ele faz é situar onde na vida da alma humana devemos fazer a compreensão dos mitos.
Ao propor um novo mito Freud buscou caracterizar dentro de suas referências culturais (fundamentalmente clássicas) o que corresponderia àos processos psiquicos que logogênese e psicogênese. Tentou demontrar que o peso da lei que o próprio Édipo faz cair sob seus olhos é o mesmo peso que tem para o psiquismo adquirir os limites da linguagem, o pai da psicanálise queria dizer que assim como o cumprimento de um designio liberta, a lógica e a linguagem libertam, pois o primeiro ordena o mundo e a segunda, remete o mundo. Em suma, Freud propõe um mito como metáfora, ele não pede que creiam nesse mito. É por isso que a psicanálise é para todos e mesmo aqueles que tem sérios problemas com a psicanálise podem completar seu tratamento sem jamais crer na psicanálise. (A transferência é com o analista, não com o modo de tratamento)
Os usos dos mitos são muitos: Podemos falar deles, mas falar dos mitos como atrativos ou como coisas curiosas é somente uma possibilidade de fazer uso dessas historietas. Há os que creem nos mitos, mas crer nesses mitos hoje em dia parece tão descabido quanto parecia aos gregos antigos (Acreditavam os Gregos nos seus mitos, Paul Veyne). Contudo, há uma outra utilização, a da psicanálise. A utilização dos mitos e da tragédia nela é metafórica. (agradeço a oportunidade de dizer isso publicamente, Ad), mas metáforas não são meramente figuras de linguagem. Metáforas são formas de dar a entender, dizer tudo dizendo pouco. É algo necessário nas nossas vidas. O peso dramático de uma vida pode estar resolvido ou resumido em um jogo de palavras e tornar o peso de viver até mesmo num chiste – desses chistes onde rir é fundamentalmente aprender. Crer num mito, assim como crêr numa cena primordial é possivelmente uma das formas de compreender sua finitude, a finitude de sua linguagem e do próprio corpo. É com base na compreensão da nossa incompletude que nos alçamos a aceitar a antiguidade do mundo. A teoria da psicanálise tentar demonstrar através dos mitos que antes é verdadeiro que o mundo nasce em nós, que é verdadeiro sermos criadores do mundo. Entretanto, diferentemente da razão, que dá a mesma lição porém com a crença de que a verdade é o que torna os homens sabedores dessas distinções, os mitos mostram que há desejos que nascem a partir do momento que a ruptura, homem x mundo se faz. O quanto essa ruptura se faz e de qual forma, não é minha intenção debater. Em outras palavras, o mito é a formação psiquica que nos avisa da nossa incompletude de ser existente e que nos dá, mediante o reconhecimento da incompletude, a feliz informação de que ainda que incompletos há um mundo com uma certa ordem onde podemos pinçar pedaços daquilo que pensávamos ser. (heróis, gênios, pessoas boas, pessoas desejadas, enfim, toda sorte de criações humanas nas quais encontramos algum alento).
Ainda que os estudos de mitos estivessem ocorrendo ao mesmo tempo que Wittgenstein desenvolvia sua obra, o que torna gênio contemporâneos incomunicáveis, se wittgenstein estivesse vivo, eu perguntaria à ele, com todo respeito que ele merece: por que não aceitar essas razões, tio Witt?
02/08/2010
Lição sobre o gozo.
De quoi s’agit il donc dans l’amour? L’amour, est-ce comme le promeut la psychanalyse avec une audace d’autant plus incroyable que toute son expérience va contre, et qu’elle démontre le contraire – l’amour, est-ce de faire un? L’Eros est-il tension vers l’Un?
“De que se trata, então, o amor? O amor, é como o promove a psicanálise com uma audácia tão incrível quanto toda sua experiência vai contra, e que ela demonstra o contrário – o amor é fazer um? O Eros, está ele em tensão direcionada ao UM (Uno)?”
L’être, c’est la juissance du corps comme tel, c’est-à-dire comme asexué, puisque ce qu’on appelle la juissance sexuelle est marqueé, dominée, par l’impossibilité d’établir comme telle, nulle part dans l’énonçable, ce seul Un qui nous intéresse. L’Un de la relation rapport sexuel.
“O ser, é o gozo do corpo como tal, isso significa dizer como asexuado, pois isso que chamamos o gozo sexual é marcado, dominado, pela impossibilidade de estabelecer como tal, em nenhum lugar do enunciável, esse só UM que nos intéressa. O Um (Uno) que se reporta à ralação sexual.”
Que tout tourne autour de la jouissance phallique, ‘est precisément ce dont l’expérience analytique témoigne, et témoigne en ceci que la femme se définit d’une position que j’ai pointée du pas-tout à l’endroit de la jouissance phallique.
“Que tudo gira em torno do gozo fálico, é precisamente isso que experiência analitica testemunha, e testemunha naquilo que a mulher se define de uma posição que apontei como não-toda em direção ao gozo fálico.”
Je vais un peu plus loin – la juissance phallique est l’obstacle par quoi l’homme n’arrive pas, dirai-je, à juir du corps de la femme, précisément parce que ce dont il juit, c’est de la juissance de l’organe.
“Eu vou um pouco mais longe – o gozo fálico é o obstaculo pelo qual o homem não chega diria eu, a gozar do corpo da mulher, precisamente por que aquilo de que ele goza, é o gozo do órgão.”
* * *
As palavras acima foram faladas e qualquer pessoa que quiser objetá-las como obscurantistas estará nada menos que falando algo óbvio. É para ser assim. Parece que a dificuldade de ler a voz de Lacan é a forma pouco didática com a qual ele se comunicava, mas repito, é para ser assim.
Da psicanálise, a única coisa esparamos é que ela lhe permita é o exercício do estilo. Que estilo? Precisamente aquele que está na singularidade de cada um, ou mais tecnicamente, aquele que se inscreve na psicogênese de um ser humano qualquer.
A psicanálise busca trazer àqueles que se aventuram a falar uma restituição do sentido de sua história e busca apontar para o traços da vida que foram determinantes para se ser quem se é.
* * *
O texto que tentei traduzir fala de algo que julguei interessante. Trata do gozo em psicanálise, um conceito extraído do direito e que significa ‘fazer usofruto’.
Mas, o que significa para a psicanálise o gozo? De que se usufrui na psicanálise? Por que esse conceito é importante?
Em primeiro lugar vale dizer que a psicanálise buscou estabelecer as causas e quais os eventos que dão origem à psicogênese. Por psicogênese há uma série de coisas que podemos compreender, mas acredito que o substancial é:
- Capacidade de tomar algo como objeto.
- Capacidade de utilizar o corpo.
Essas duas conquistas do corpo humano são simples, mas não fazemos idéia das enormes repercussões que elas tem para a subjetividade.
- Sobre a capacidade de tomar algo como objeto, parece haver aqui uma banalidade. Sabemos que a linguagem faz isso muito bem e que é um problema relativo à filosofia da linguagem entender como um objeto é singificado. Entretanto, algo que fica em aberto é saber, mesmo que fossemos idealistas e suspeitassemos da existência de um mundo “lá” fora, por que há mundo (real ou imaginado) qualquer seja a alternativa filosófica. Isso é, por que há outro, ou alteridade? Não é por que há linguagem, pois que haja alteridade é bi-implicado com o fato de haver linguagem.
Os trechos acima dizem simplesmente o seguinte: A linguagem acontece no homem devido à sua busca de retomar o outro que foi perdido. Acontece que o que separa o homem do outro é o mecanismo que lhe ajuda à reecontrá-lo, ou seja, é a própria linguagem que o separa e permite a busca e reencontro. A linguagem fala do mundo por que é no mundo que buscamos a completude.
O fálico (aquilo que temos em conta como sendo completo) é o que é visado pelo incompleto (fêmea). Do mesmo modo, o homem quando na posição de falante é assexuado, pois tanto homem quanto mulher partem de sua incompletude. O que lhes tornará homem ou mulher é precisamente o gozo (uso) que fazem de seus corpos. (se a psicnálise foi acusada de machista, depois disso, não sei se sobra algum espaço para esse tipo de contestação).
Lacan chama de significante mulher a posição incompleta e significante fálico aquele que é visado. A sexualidade na psicanálise é a forma como olhamos e buscamos no mundo essa completude. Assim, se a completude está no sexo oposto ou na arte, a sexualidade estará sendo exercida igualmente.
Finalmente, acredito fica possível comentar a frase inicial, onde Lacan fala do amor e de ser Um. O que é o amor? É o que ocorre quando encontramos o outro com os traços que através da linguagem acreditamos ser o que nos falta. (apesar de careta, tente pensar no resto da teoria que nos levou a concluir isso).
O problema é: o outro é do mundo. Não há integração e fusão possível. Por isso Lacan diz: Não há relação sexual, o máximo que há é gozo do próprio corpo e nisso esbarra nossa incompletude.
28/06/2010
Psicanálise e Fenomenologia
A psicanálise e a fenomenologia tiveram muito provavelmente um tutor comum. Freud e Husserl tiveram como professor Brentano, e compartilharam os ensinamentos desse professor sobre Aristóteles. A psicanálise Freudiana, por essa razão, não pode ser acusada de inocência.
Peço uma breve interrupção na seqüência natural do curso para tentar situar no rastro da fenomenologia a compreensão da experiência da consciência pela psicanálise.
O caminho que será feito nessa curta reflexão buscará uma redefinição do conceito de Inconsciente. A intenção é simples, mas não por isso fácil: buscarei tornar clara uma lição de Jaques Lacan onde ele mostra sob quais supostos a psicanálise freudiana se apóia para fazer a junção do campo da ética e da percepção.
1. Lacan apresenta como preâmbulo à sua discussão a Ética a Nicômaco e a divisão fundamental da Ética em seus dois campos consagrados: a episteme e o ethos (propriamente o campo teórico da ética e o campo prático). Na lição de Lacan, Aristóteles é o primeiro teórico da Ética a falar do problema de difícil apreensão: o homem racional que sucumbe à intemperança.
2. O problema seria compreender o que motiva aquele que é intemperante uma vez que epistemologicamente é capaz de saber o que é melhor para si e para o grupo; esse sujeito não deixa de agir segundo pressupostos que não parecem coerentes à um observador externo.
3. A psicanálise, diferentemente da psicologia acadêmica, buscou traçar um mapa fino da emergência dos dilemas morais na narrativa que uma pessoa articula a seu próprio respeito. Isso não torna o dilema moral algo subjetivo, mas só busca, através da observação, estabelecer o momento exato em que esse tipo de reflexão se instala como um problema a ser enfrentado.
4. A hipótese Lacaniana pode ser então traduzida da seguinte maneira:
““Minha tese é de que a lei moral, o mandamento moral, a presença da instância moral, é aquilo por meio do qual, em nossa atividade enquanto estruturada pelo simbólico, se presentifica o real.”
Nessa citação, para tornar claro o jargão de Lacan, poderíamos precisar que na sua concepção há uma lei moral objetiva e seu reconhecimento se dá através da própria inserção que um sujeito x tem na linguagem. Ora, se a linguagem é o que permite o acesso do homem ao mundo, é no reconhecimento da linguagem como margem que ‘toca’ o mundo que o homem sente um primeiro vagido da sua limitação e sente o quanto há de objetividade no mundo que lhe supera. Para Lacan, a primeira lei moral se instaura não somente na decisão sobre o valor de um ato. A existência de alguma lei moral é algo que deve ser assumido por todo aquele ser participante da linguagem e que por meio desta é capaz de inferir seu limite com relação ao mundo.
5. Contrariamente à grande parte dos teóricos da ética, Freud busca argumentar contra uma crença bastante usual: a idéia de que o alinhamento das atitudes com algum Bem é responsável por uma sorte de prazer. Esta idéia sempre fora reconhecida por todos estudiosos, contudo sem questionar-se sobre os fundamentos do prazer. Freud busca justamente isso. Ele quer entender o quanto o prazer e a realidade se tencionam no psiquismo do sujeito e, a partir disso, como o homem se posiciona diante das questões morais.
5.1. Dessa maneira Freud buscou através de toda história da sua pesquisa deixar claro o que podemos entender como o prazer e a realidade no psiquismo. Seu estudo deu origem a dois princípios que governam a vida anímica: o principio de prazer e o princípio de realidade.
6. Primeiramente façamos a compreensão do aparelho psíquico que Freud buscou deduzir de seus pacientes:
“Ele parte de um aparelho que, por sua própria tendência, se dirige ao engodo e ao erro. Esse organismo por inteiro parece feito não para satisfazer a necessidade, mas para aluciná-la. Convém, portanto, que outro aparelho, que se oponha a ele, entre em jogo para exercer uma instancia de realidade e se apresente, essencialmente, como um princípio de correção, de chamada á ordem”
Para deixar mais claro. Na concepção de Freud, o homem tende à morte e na medida que tende à morte cria, realiza e inventa, para não encontrar tão imediatamente esse fim. O aparelho psíquico se constitui, basicamente, por uma tendência à morte que paradoxalmente encontra um princípio regulador que joga o psiquismo de volta à vida. Essas forças são chamadas por Freud de pulsão de morte e pulsão de vida.
7. Para fazer uma justa compreensão disso e justificar a diversidade das formas de vida entre os seres humanos vale citar aqui a passagem em que Lacan comenta o termo alemão que a justa medida nos passa a idéia de uma lei particular que se encontra em todos. Ou seja, um particular que de alguma forma reencontra o universal. O termo é o ‘Wunsch’.
“Esse Wunsch, nos o encontramos, em seu caráter particular irredutível, como uma modificação que não supõe outra normatização senão a de uma experiência de prazer ou de penar, mas uma experiência derradeira onde ele jorra, e a partir da qual ele se conserva na profundeza do sujeito sob uma forma irredutível. O Wunsch não tem o caráter de uma lei universal, mas, pelo contrário, da lei mais particular – mesmo que seja universal que essa particularidade se encontre em cada um de nós seres humanos. Nós o encontramos sob uma forma que qualificamos de fase regressiva, infantil, irrealista, com o caráter de um pensamento entregue ao desejo, de um desejo tomado pela realidade.”
8. “O princípio de realidade faz muito mais que um simples controle – trata-se de retificação. O meio pelo qual ele opera é apenas rodeio, precaução, retoque, retenção.”
“A posição de Freud é diferente da dos idealistas. Para ele a realidade é precária. E é justamente na medida em que seu acesso é tão precário que os mandamentos que traçam sua via são tirânicos.”
Aqui começamos a nos aproximar dos temas propriamente relativos ao curso. Ora, Freud, na concepção que criou do aparelho psíquico, foi levado a tomar o contato com a realidade como a superfície de um processo que se articulava em diversos níveis. Para ele, processos como a memória e a retenção em algum ‘lugar’ do aparelho psíquico eram fundamentais para explicar a adequação dos dados dos sentidos àquilo que é produzido pela consciência.
9. Para compreender o que vem a ser ao cabo o princípio do prazer e o princípio de realidade é necessário fazer então a distinção:
- Principio do Prazer: Principio de funcionamento do aparelho psíquico que conduz a subjetividade do sujeito a reencontrar satisfações (prazer). Dada a natureza do pensamento humano ter estrutura de linguagem (tese filosófica), o principio do prazer atua no reencontro com o signo marcado de prazer pela história do sujeito.
- Principio de Realidade: Atua em conjunção ao principio de prazer. Sua função, como exposto acima, é de retificar, retomar e reter.
10. Finalmente, do entrecruzamento desses princípios podemos buscar a compreensão da dinâmica do psiquismo em dois processos:
10.a. Processo Primário:
“Somos levados a articular o aparelho de percepção com o que? Com a realidade, é claro. (É ela que nos dá a exterioridade aos meus pensamentos). Entretanto, se seguirmos a hipótese de Freud, sobre o que, em princípio, se exerce o governo do princípio do Prazer? Precisamente sobre a percepção, e é essa a novidade que ele traz. O processo primário, nos diz ele na sétima parte da “Interpretação do Sonhos”, tende a se exercer no sentido de uma identidade de percepção. Pouco importa que seja real ou alucinatória, ela tenderá sempre a se estabelecer. Se ela não tiver a sorte de coincidir com o real, será alucinatória. Esse é todo o perigo, no caso de o processo primário ganhar a rodada.
10.b. Processo Secundário:
“O processo secundário tende a que? A uma identidade de pensamento (com a realidade). Se exerce no sentido de um tateamento, de uma prova retificativa, graças à qual o sujeito, conduzido pelas descargas que se produzem segundo as Bahnungen (caminhos) já trilhados, fará a série de tentativas, rodeios que pouco a pouco o levarão à anastomose, ao ultrapassamento da prova imposta ao sistema circundante dos objetos presentes nesse momento de experiência. O que forma a trama de fundo da experiência é, digamos assim, a ereção de um certo sistema de Wunsch, ou de Erwartung de prazer, definido como o prazer esperado, e que tende, por esse fato, a realizar-se em seu próprio campo de uma maneira autônoma, sem nada esperar, em princípio, do exterior. Ele vai diretamente à realização mais oposta ao que tende a desencadear-se.”
11. Para fazer a compreensão desse esquema devemos então articular o Sujeito, o processo que lhe ocorre e o objeto que é dado pelo processo:
a. No psiquismo do sujeito atuam os princípios do prazer e de realidade.
b. O processo afetado pelo principio do prazer é a percepção-consciência, uma vez que envolve a busca de um objeto de satisfação não conhecido na realidade exterior (objeto em ultima instância conhecido como objeto causa do desejo).
c. Já o principio de realidade afeta os pensamentos que ocorrem em busca dos objetos já conhecidos. É neste ponto que ocorre a retificação do pensamento com a realidade e a realização da possibilidade do discurso verdadeiro. Objetos do pensamento são recolocados em relação com objetos do mundo.
d. A organização do esquema se dá dessa maneira por que as setas indicam a dinâmica e a organização por colunas indica o pertencimento. Dessa forma, o pensamento é inconsciente, assim como o objeto causa de desejo.
e. A percepção-consciência é um processo realizado pelo principio de realidade, assim como seus objetos são objetos da consciência para o qual há possibilidade de reconhecimento em palavras.
f. Como um objeto inconsciente pode ser conhecido? Uma vez que os objetos da consciência podem ser conhecidos pela estrutura da linguagem, podemos recuar no limite entre consciente e inconsciente e deduzir que
1. Se todos objetos são cognoscíveis por meio da estruturação da linguagem.
2. Se há objetos inconscientes.
3. Esses objetos devem ser também cognoscíveis por meio da linguagem.
4. Para que possam ser conhecidos por linguagem é necessário que tenham uma estrutura acoplável à linguagem.
Lacan nos diria:
“Esse processo, tal como nos é descrito em Freud, é inconsciente. – O pensamento é inconsciente. Não conhecemos esse processo no ato. O processo é indiretamente conhecido pelas palavras.”
“No final das contas, não apreendemos o inconsciente senão em sua explicação, no que dele é articulado que passa em palavras. É daí que temos o direito – isso, ainda mais porque a continuação da descoberta freudiana no-lo mostra – de nos darmos conta de que esse inconsciente não tem, ele mesmo, afinal, outra estrutura senão uma estrutura de linguagem.”
“O principio de realidade governa o que ocorre no nível do pensamento, mas é apenas na medida em que do pensamento retorna alguma coisa que, na experiência humana, ocorre ser articulada em palavras, que ele pode, como no princípio do pensamento, vir à consciência do sujeito, no consciente.”
“Inversamente, o inconsciente, este, deve ser situado no nível dos elementos, de compostos lógicos que não são da ordem do logos articulados sob a forma de um orthos logos escondido no âmago do lugar em que, para o sujeito, se exercem as passagens, as transferências motivadas pela atração e pela necessidade, a inércia do prazer, e que valorizarão indiferentemente para ele tal sinal em vez de tal outro – visto que ele pode vir substituir o primeiro sinal, ou pelo contrário, ver transferir-se para ele a carga afetiva ligada a uma primeira experiência.”
“Vemos, então, nesses três níveis, ordenarem-se três ordens, que são respectivamente as seguintes.”
“Há primeiro, digamos, uma substancia, ou um sujeito da experiência que corresponde à oposição principio do prazer/realidade.”
“Há, em seguida, um processo da experiência que corresponde à oposição entre o pensamento e a percepção. O que vemos aqui? O processo divide-se conforme tratar-se da percepção – ligada à atividade alucinatória, ao principio do prazer – ou do pensamento. É o que Freud chama de realidade psíquica. De um lado está o processo enquanto processo de ficção. De outro, estão os processos de pensamento, pelos quais se realiza, efetivamente, a atividade tendencial, isto é, o processo apetitivo – processo de busca, de reconhecimento e, como Freud explicou mais tarde, de reencontro do objeto. Essa é a outra face da realidade psíquica, seu processo como inconsciente, que é também processo de apetite.”
“Enfim, no nível da objetivação, ou do objeto, o conhecido e o desconhecido opõem-se. É porque o que é conhecido não pode ser conhecido senão em palavras, que o que é desconhecido apresenta-se como tendo uma estrutura de linguagem. Isso nos permite recolocar a questão do que ocorre no nível do sujeito.”
“As oposições ficção/apetite, cognoscível/não-cognoscível, dividem o que ocorre no nível do processo e nível do objeto. E no nível do sujeito? Devemos interrogar-nos em que consistem as duas vertentes a serem repartidas nesse nível entre os dois princípios.”
“Pois bem, proponho-lhes isto. O que, no nível do princípio do prazer, se apresenta ao sujeito como substancia é o seu bem. Uma vez que o prazer governa a atividade subjetiva é o bem, a idéia do bem que o sustenta. É a razão pela qual, em todos os tempos os éticos não puderam fazer menos do que tentar identificar esses dois termos, no entanto, tão fundamentalmente antinômicos, que são o prazer e o bem.”
“Freud não pensa em nem um instante em identificar a adequação à realidade a um bem qualquer. No Mal-Estar na Civilização, diz-nos – seguramente a civilização, a cultura pede demais ao sujeito.”
Chegando ao fim do texto me dei conta que não paguei as promessas que havia feito. Contudo, creio que essa introdução era necessária para tornar menos condensada a relação entre a psicanálise e fenomenologia. Se for possível, em outro post gostaria de explorar mais detidamente a relação entre o segundo post do curso e este post.
(Publish or Perish...) - Aceito sugestões de reescrita.
(Publish or Perish...) - Aceito sugestões de reescrita.
10/06/2010
O peso da existência é demais para meu joelho
O peso da existência pode ser pesado. Não no sentido de medido, mas de ser difícil de carregar.
Aprendi muito com meu joelho. Ele me ensinou. Me ensinou que passo a maior parte do tempo negligenciando que tenho um corpo.
Ele me dava a dor e a imobilidade, eu retribuia com o não-esquecimento e raiva.
Meu joelho me ensinou o valor de dar um passo. De passar adiante e do passado.
Me ensinou que preciso me recuperar para conseguir dar um passo a diante. Que era necessário passar pelo longo período de recuperação para poder voltar e ficar bem.
Aprendi com meu joelho que a natureza do meu corpo cuida de mim, mas que para isso, preciso ajudá-la.
Meu sábio joelho me ensinou a vê-lo como estando fora e depois a trazê-lo de novo para dentro (do corpo?)
Meu amigo joelho, me ensinou que o passado não precisa ser carregado no corpo. Que eu era livre para carregar o peso que achasse considerável e que para caminhar bem é preciso deixar alguns pesos para trás.
Boa recuperação, meu caro braço direito!
Aprendi muito com meu joelho. Ele me ensinou. Me ensinou que passo a maior parte do tempo negligenciando que tenho um corpo.
Ele me dava a dor e a imobilidade, eu retribuia com o não-esquecimento e raiva.
Meu joelho me ensinou o valor de dar um passo. De passar adiante e do passado.
Me ensinou que preciso me recuperar para conseguir dar um passo a diante. Que era necessário passar pelo longo período de recuperação para poder voltar e ficar bem.
Aprendi com meu joelho que a natureza do meu corpo cuida de mim, mas que para isso, preciso ajudá-la.
Meu sábio joelho me ensinou a vê-lo como estando fora e depois a trazê-lo de novo para dentro (do corpo?)
Meu amigo joelho, me ensinou que o passado não precisa ser carregado no corpo. Que eu era livre para carregar o peso que achasse considerável e que para caminhar bem é preciso deixar alguns pesos para trás.
Boa recuperação, meu caro braço direito!
28/05/2010
The Chomsky-Foucault Debate [excerpt, part 2/2]
Aqui está a segunda parte, onde eles falam mais intensamente sobre a noção de justiça.
The Chomsky-Foucault Debate [excerpt, part 1/2]
Esse debate não é de hoje. Não sua realização que não é de hoje. Seu tema é que não é de hoje.
Desde a Republica e do Górgias de Platão que podemos situar a justiça dentro do escopo dos temas de interesse da Filosofia. Nesse debate, que por mais sumário que seja, não deixa de apresentar o problema de forma interessante, ocorre uma distinção que ao meu ver é fundamental.
A justiça, assim como uma série de valores que temos na nossa sociedade, é resultado de uma base insuperável da natureza humana ou ela é um valor resultante de um abandono da natureza humana?
Aqui Michel Foucault defende que um sistema social que concebe a justiça como ponto a ser buscado, só pode ocorrer onde ela (a justiça) não ocorre. Onde a tentativa de superação de diferenças resulta na invenção do parametro da justiça. O exemplo que ele dá é o da sociedade ocidental, onde uma classe se valida através da noção de justiça e uma outra pertence à essa sociedade por buscar a justiça. Se essa sociedade não tivesse distinções que tornam esses homens diferentes entre si, não haveria necessidade da noção de justiça, pois ela seria suposta e não se realizaria enquanto ponto a ser buscado, mas ficaria suposta como qualquer lei do tipo "O cidadão que não foi concebido não é cidadão".
Esse argumento, se me fiz claro, é apresentado por Foucault pelo seu viés historicista. Ele crê que a noção de justiça não é algo da natureza humana. Pelo menos não como necessidade primária. Sua necessidade primária é viver numa comunidade cultural e somente secundáriamente, ao viver dentro de um sistema cultural que apresente a necessidade histórica de desenvolver essa noção, é que podemos considerar a justiça como uma "idéia" concebível.
Contrariamente à Foucault, a opinião de Chomsky defende a justiça como parte fundante da natureza humana. Ele defende que a justiça está presente em qualquer sistema social, por mais que ele não apareça como fim a ser buscado. Sua posição parece defender que o ideal de justiça é inerente e fora de qualquer necessidade histórica.
Talvez, se tomarmos uma vaga definição de justiça, possamos olhar para aquilo que é condição de possibilidade da emergência de tal termo. Noções como "igualdade", "identidade", "diferença", decorrem, são condição ou se assentam no mesmo plano que concebo a noção de justiça? São interdefinições?
26/05/2010
Visita meu blog !
OW, postei algumas coisas no meu blog. São de outro gênero, por isso não postei aqui.
www.blogdofernandito.blogspot.com
www.blogdofernandito.blogspot.com
24/05/2010
...Angoisse
Quem sabe passa ao escrever...
Angústia de onipotência poderia chamá-la: ela é causada pela mais pela minha incapacidade de ter prazer com as coisas legais do mundo que pela falta de graça no mundo. Talvez eu deva conviver mais com crianças, talvez eu deva gastar um pouco mais de dinheiro numa boa comida. Talvez eu deva ver mais os amigos.
Claro que nenhuma delas é solução se sou eu quem não consigo me adequar, contudo, sabe-se lá, se numa dessas situações encontro o alento até o proximo golpe.
A certeza que esse blog traz é a de não ficar só. De não falar ao vento. O conforto de ser lido é fundamental nesse blog. Ao menos para mim. Se não fosse alguém que me escuta, qual o sentido de falar? Como diz um psicanalista que gosto: "Como falar sem pressupor que haja algo a ser compreendido?". Parece que no ato discursivo há um "outro" de natureza nebulosa que é necessário. Esse outro pode ser meu interlocutor, em quem suponho um mundo compartilhavel; um mundo em que algum sentido pode ser vivido de forma semelhante. Sem esse outro, por que falar? Poderia calar e aguentar o silêncio eterno. Viver baixo a hipótese quase inverificável de que todas as pessoas são máquinas que respondem precisamente aos movimentos do meu pensamento que se tornam atos de fala ou corpóreos. Por que buscar algum sentido? Ou o que é pior, sem o sentido, como alcançar o outro?
*
Recorro aos amigos para expressar um pouco da angustia acumulada de três dias sem sol. Essa angustia, como toda angustia, é causada pela proximidade de algo que não se consegue saber. Ela guarda seu segredo mais no movimento de sua aproximação do que na certeza que tenho de senti-la.Angústia de onipotência poderia chamá-la: ela é causada pela mais pela minha incapacidade de ter prazer com as coisas legais do mundo que pela falta de graça no mundo. Talvez eu deva conviver mais com crianças, talvez eu deva gastar um pouco mais de dinheiro numa boa comida. Talvez eu deva ver mais os amigos.
Claro que nenhuma delas é solução se sou eu quem não consigo me adequar, contudo, sabe-se lá, se numa dessas situações encontro o alento até o proximo golpe.
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A certeza que esse blog traz é a de não ficar só. De não falar ao vento. O conforto de ser lido é fundamental nesse blog. Ao menos para mim. Se não fosse alguém que me escuta, qual o sentido de falar? Como diz um psicanalista que gosto: "Como falar sem pressupor que haja algo a ser compreendido?". Parece que no ato discursivo há um "outro" de natureza nebulosa que é necessário. Esse outro pode ser meu interlocutor, em quem suponho um mundo compartilhavel; um mundo em que algum sentido pode ser vivido de forma semelhante. Sem esse outro, por que falar? Poderia calar e aguentar o silêncio eterno. Viver baixo a hipótese quase inverificável de que todas as pessoas são máquinas que respondem precisamente aos movimentos do meu pensamento que se tornam atos de fala ou corpóreos. Por que buscar algum sentido? Ou o que é pior, sem o sentido, como alcançar o outro?
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Se estivesse ao meu alcance nomear minha angustia diria que ela vem disso: da dificuldade de alcançar o outro e de imaginar que no outro é muito provável encontrar algo semelhante. Talvez a melhor forma de alcançar o outro é ver como ele torna real o seu mundo. Isso talvez seja a atividade do psicanalista. Estar presente e ser testemunha do momento em que o mundo torna-se algo sustentável para alguém e não mais uma boca afigurada como uma ameaça constante que pode tragar a vida das pessoas e arruinar o que aprendemos a amar.
19/05/2010
Desapoios
E é assim que acontece...
Na vida, se nos apegamos em um erro de cálculo, tudo que podemos criar são estruturas falhas; quando as colocamos a prova, tentando representá-las na realidade, essas se mostram insustentáveis. É como se tudo que nos esforçamos tanto para criar desmoronasse bem diante dos nossos olhos e nos perguntamos por que essa pretensa realidade não se sustenta? É simples: um erro só sustenta outro erro e do erro ao acerto há uma distância incalculável. Se, por outro lado, percebemos o ato falho, então tudo fica mais fácil, podemos nos desapoiar desses falsos pilares e procurar os que dão verdadeira sustentação à realidade...
E é assim que crescemos,
Desapegamo-nos daquilo que não conseguimos manter;
Quando reconhecemos um erro de cálculo em nossas vidas e nos dispomos a resolvê-lo percebemos que se desapoiar do falso é se libertar...
E é assim que nos transformamos,
O tempo passa e vai caindo a casca;
Proponho que nos libertemos da mentiras que nos sustentam, que nos desapoiemos de todas as ilusões que criamos para nos confortar. Usemos o desapoio como sustentação, desapeguemos do que nos separa de nós mesmos, para que, assim, libertos nos encontremos...
E é assim que nos conhecemos,
Acostumamo-nos com o que há de essencial à vida.
Na vida, se nos apegamos em um erro de cálculo, tudo que podemos criar são estruturas falhas; quando as colocamos a prova, tentando representá-las na realidade, essas se mostram insustentáveis. É como se tudo que nos esforçamos tanto para criar desmoronasse bem diante dos nossos olhos e nos perguntamos por que essa pretensa realidade não se sustenta? É simples: um erro só sustenta outro erro e do erro ao acerto há uma distância incalculável. Se, por outro lado, percebemos o ato falho, então tudo fica mais fácil, podemos nos desapoiar desses falsos pilares e procurar os que dão verdadeira sustentação à realidade...
E é assim que crescemos,
Desapegamo-nos daquilo que não conseguimos manter;
Quando reconhecemos um erro de cálculo em nossas vidas e nos dispomos a resolvê-lo percebemos que se desapoiar do falso é se libertar...
E é assim que nos transformamos,
O tempo passa e vai caindo a casca;
Proponho que nos libertemos da mentiras que nos sustentam, que nos desapoiemos de todas as ilusões que criamos para nos confortar. Usemos o desapoio como sustentação, desapeguemos do que nos separa de nós mesmos, para que, assim, libertos nos encontremos...
E é assim que nos conhecemos,
Acostumamo-nos com o que há de essencial à vida.
09/05/2010
Thinking about thinking about Darwin
Em algum momento da minha ainda curta trajetória dentro da universidade fui convocado a pensar o sentido da história. Muitos colegas e muitas pessoas que não se dedicam ao estudo sistemático da história fogem ao enfrentar com esse problema.
Uma das coisas mais presentes na história recente da humanidade é definitivamente a presença do dinheiro nas trocas. O dinheiro, todos sabem bem, fascina e talvez o seu sucesso sempre tenha caminhado de mãos dadas com a sua fragilidade que, calada, sempre optou por se pronunciar quando mais os homens se tornavam cegos.
É difícil avaliar a participação do dinheiro na nossa comunidade, o que cada pessoa pensa a seu respeito, contudo o seu funcionamento pode revelar alguma característica que o torna um instrumento de trocas eficaz.
Ora, como disse Mr.A no post Thinking about Darwin a sociedade americana se sustenta sobre um vazio. Se o dinheiro coloca preço à tudo dentro daquela sociedade e se o dinheiro não tem um valor em si, não há sustentação real para aquela sociedade.
Para seguir o raciocínio, vale pensar o dinheiro como um símbolo que significa o valor de qualquer coisa, porém é uma espécie de simbolo que tem existência material e que pode ser trocados somente pelo que vale em potência, que não vale o que "de fato" vale. Alias, poderiamos dizer que o dinheiro não vale nada, ele é o intermediário das coisas que realmente valem por que tem valor de uso. O dinheiro parece ser o eixo através do qual todas as coisas que podem ser negociadas são reenviadas e que encontram naquele simbolo materializado um referêncial exterior ao próprio valor real que as coisas tem.
O que me parece não ser trivial nisso tudo é que sustentar todo o mundo de trocas em torno desse vazio que o dinheiro representa é um retrato muito humano de como símbolos podem chegar a significar quase nada. Isso aproxima o milionário, que não dá mais valor ao dinheiro, ao mendigo voluntário, que também não toma o dinheiro como solução para sua vida. São dois extremos que desistiram desse vazio exterior ao valor real das coisas.
O que deixo como questão futura seria o seguinte: Não seria necessário ao mundo das trocas, simbólicas e materiais, que algo fosse deixado de fora do próprio sistema e que tenha uma valor exclusivo relativo às trocas? Isso não dá uma liberdade maior para o sujeito ir em busca daquilo que ele quer? Como não tornar essa liberdade adquirida pelo sujeito em tirania dos meios que ele mesmo criou para o exercício da sua liberdade?
Abração
por Fernandito
25/04/2010
Sobre gostos e cores...
Escolhi essa imagem para falar de uma coisa que para mim é extremamente difícil.
Ontem quando saímos, conversei com o Cássio e com a Isis sobre a dificuldade que é expressar o gosto. É sobre isso que pretendo falar...
Conheci pessoas que entendem de vinho, que saboreiam queijos e sentem os problemas de maturação, que cozinham uma barbaridade. O que sinto dificuldade de compreender é o momento de expressar a experiência de saborear algo...
Alguém pode me dizer "Mas não é preciso falar !". O simples gostar ou não basta. Ok, contudo, isso mexe muito com aquilo que podemos chamar de boa cozinha ou tornar banal todo esforço por agradar alguém pelo paladar. Também haveria problemas tais como saber se não estamos dando algo divino a porcos, ou como cozinhar para pessoas que não sentem a diferença entre uma carne de porco ou de gado. Complicado...
Contudo, pode-se facilmente cair num grau de afetação ao discursar sobre o gosto das coisas que chega a ser desprazeroso, como no caso da tirinha, ou como no caso dos demonstradores de vinho que falam de gostos como "Cereja dos campos Eslavos do verão de 1980". Também complicado...
Quase não tenho dúvidas que saber apreciar os alimentos é melhor para a pessoa,pois essa "vê o mundo" com mais riqueza. Contudo vale perguntar-se qual a sabedoria necessária para lidar com a aquisição dessa riqueza.
Gosto muito do que escutei do acreano Armando Nogueira. Ele dizia, gosto muito de vinhos e gosto muito de mulheres. De ambos não entendo nada, só sei que guardo boas histórias.
Abração!
06/04/2010
Abrindo um caderno sem dono...
Se há algo de que o ser humano não pode se omitir é de se expressar, ao não fazê-lo pode incorrer no grave crime do "disperdício da unicidade de sua exitência". Assim, sendo cada exitência unica deve ser valorizada e respeitada no mais profundo da produção do seu espirito.
A expressão humana, seja ela tomada de empréstimo, seja ela original, seja ela através do silêncio, da imagem, do som ou do tato, enfim, seja qual for o meio, a expressão é garantia de tocar as profundezas eternamente inquietas do espirito humano.
Portanto, para aqueles que desejam aprender a suspender-se sobre essas profundezas para elas melhor observar e enfrentá-las com olhar atento que elas exigem é necessário um espaço de criação.
Esse blog é um caderno sem dono. Agora, basta utilizá-lo.
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